Ostraveiro – Marinha Passagem
— desde 2016 —

Costuma-se dizer que não é possível misturar negócios e lazer. Sandra e Sandro, o simpático casal, proprietário da OstrAveiro na Rua da Ria, Pirâmides, têm boas razões para desconfiar da noção. A sua história começou há quinze anos atrás, com produção de bivalves na Gafanha da encarnação. A atividade apresentou um crescimento contínuo desde a sua incepção até sentir o solavanco da crise e, apesar desta não ter abalado as fundações do negócio, deixou o casal a pensar na possibilidade de explorar outros aspetos da área em que trabalhavam.

Ao prospectarem a beira-mar, encontraram uma antiga salina votada ao abandono, a Marinha Passagem, que se fazia acompanhar de um palheiro em avançada decrepitude. Podiamos, a fim de ilustrar a situação, dizer que a ocasião faz o ladrão, porém, esta foi uma ocasião que necessitou de muito trabalho e dedicação. Nas palavras de Sandra, o que os aguardava era apenas 'lixo e entulho'. Não obstante todas estas dificuldades, o casal viu potencial no sítio. Era um bom local para a produção que mantinham na Gafanha da encarnação e decidiram avançar com as obras necessárias, que se traduziram, inicialmente, em 8 hectares de terraplanagem e o restauro da mencionada casa. Certo dia, ao passearem ao fim da tarde para apreciar a evolução da obra, descobriram que as intermináveis ramificações do Rio Vouga escondem alguns segredos inacreditáveis. Após marés vivas, que deixaram o nível das águas no seu mínimo absoluto, Sandra e Sandro conseguiram ver a proa de uma caravela! Claro que a história não podia ficar por ali e mediante alguma pesquisa confirmaram que se trataria de uma das muitas caravelas que transportavam cerâmicas provenientes do porto quinhentista da nossa cidade. O facto de encontrarem na Marinha Passagem, pouco tempo depois, não só cerâmicas, mas também a pedra vulcânica que servia de lastro para os navios, confirmou-lhes este autêntico tesouro aveirense. Ora tal descoberta mostrou-lhes que a marinha não era apenas um óptimo sítio para viveiros, tinha também uma história rica para contar. Decidiram então criar um conceito novo para o seu negócio que permitisse a divulgação da cultura aveirense, assim como o processo de criação dos vários bivalves que comercializavam e a degustação in-loco dos mesmos.

As obras prosseguiram com redobrado entusiasmo, sendo que o próximo passo consistia em fundear o primeiro tanque (remoção de lamas e criação de caminhos pedonais).
Nova surpresa! A junção de lamas que secavam debaixo de um sol tórrido e a alta concentração de salinidade fez brotar no chão do tanque vazio umas plantinhas desconhecidas do casal. Sandra, eterna curiosa, resolveu fazer uso do método científico mais antigo da humanidade. Pegou numa e trincou-a! Era salgada. Para se certificarem do que se tratava, consultaram um biólogo que lhes indicou tratar-se de salicórnia ramosissima, uma estirpe de altíssima qualidade. Para quem desconhece as propriedades da salicórnia, saiba que se trata de um excelente substituto do sal, apresentando óptimas características anti-oxidantes, anti-tumorais, diuréticas, assim como boas quantidades de magnésio, ferro, vitaminas A B e C e, por fim, baixa concentração de sódio. Estavam, portanto, perante o seu segundo tesouro. O tanque (que imediatamente passou a ser o tanque da salicórnia), era ainda um excelente sítio para a nidificação de aves, adicionando, desta forma, mais um atrativo para quem visite a OstrAveiro. Deixamos apenas um aviso: os pernilongos são bastante protetores dos ovos! Por outro lado, Sandra e Sandro procuram sempre serem pouco intrusivos neste habitat e defendem a preservação da rica fauna da marinha.

A produção em si também teve bons resultados. As águas aveirenses com a sua baixa temperatura, pouca poluição e abundância de plâncton / fitoplâncton permitem, por exemplo a obtenção de ostras em ano e meio ao invés dos habituais três. O processo de criação é explicado entusiasticamente por Sandra, porém, não se fica pela teoria. Convida os visitantes ao manuseamento das ostras bebés na 'maternidade', na preparação...
Após saciar a mente, resta saciar a barriga. E que petiscos aguardam os visitantes: bivalves, ameijoas, berbigão no pão, ostras ao natural ou ostras gratinadas e feijoada de navalhas. Para quem não aprecie o que vem do mar, pode sempre trazer qualquer coisa para comer. O casal remata a animação com a divulgação de eventos variados, como por exemplo noites de fado. Por fim, após a refeição, pode-se fazer a digestão dando umas voltas de gaivota enquanto se respira o salutar ar da marinha. Com toda esta animação não é de estranhar que os visitantes fiquem no mínimo três horas.

A OstrAveiro tem tido um percurso repleto de curiosidades e boas vivências. Ao casal juntaram-se a filha e os pais de Sandra, fazendo deste santuário uma casa familiar que o recebe de braços abertos. A experiência singular começa no momento em que se põe o pé no barco que nos leva à marinha e afirma-se como um estímulo aos cinco sentidos, mas atenção, depois de almoços ou jantares que se fazem acompanhar por bons vinhos, também eles comercializados na casa, o barco tende a abanar mais um pouco no regresso.

Assim se apresenta a OstrAveiro: uma fusão perfeita entre céu, terra e ria que continuará a encantar a beira-mar aveirense com a sua presença. Venha descobri-la!  
Ostraveiro

 

2018-08-07T09:40:20+00:00