Cervejaria Tico Tico
— desde 1950 —

A meio do século XX, Aristides, um homem de Aveiro decide, mediante uma visão admirável para o negócio, criar uma casa de pasto em Aveiro, que viria a ser conhecida como Tico-Tico e cuja presença se faz sentir na ventosa cidade até aos dias de hoje. Num Aveiro de antigamente, em que as referências eram nomes como Gato Preto, Galito, Galo D'ouro, Triannon, Café Avenida e Café Arcada, Aristides ambicionou deixar a sua marca na cidade e começou por escalar tal montanha com um investimento considerado alto para 1950: uma renda de 1000 escudos por mês, por um espaço que tinha sido recentemente construído pela Mercantil Aveirense na Travessa do Mercado, nº1. O filho Fernando SIlva era ainda um adolescente, ao passo que ao lado do lar, em Vilarinho, a esposa tomava conta de uma pequena mercearia.

Assim começou a aventura do Tico-Tico, porém, como todas as grandes histórias, também esta teve as suas dificuldades. Aristides faleceu em 1955 e Fernando Silva, já com 22 anos regressa do Ultramar quando o serviço militar findou. Veio prestar um apoio valioso à sua mãe, Conceição, que entretanto tinha pegado no restaurante. O seu pai tinha-lhe deixado um legado de dívida, com a sua partida inesperada, mas felizmente também lhe deixou um legado de capacidade de trabalho e luta. Fernando Silva trouxe do seu tempo no Ultramar novas ideias e experiências e decidiu enfrentar as dificuldades com uma visão que consistiu em transformar um restaurante de funcionamento simples, à base de pregos no prato e no pão, na melhor cervejaria e marisqueira de Aveiro. Começou por estabelecer uma rede de contactos que lhe garantia o abastecimento de marisco necessário. Da Barra e Gafanha chegava a amêijoa, o mexilhão, a perceves. Da Peixaria Minhota do mercado do Bolhão e de De Vila Praia de ncora e Peniche vinha o lagostim, o camarão, a sapateira. E como Fernando Silva não era pessoa de fazer as coisas 'para desenrascar', ia todos os dias à estação para receber mercadoria fresca vinda do norte do país.

Resolvida a questão do abastecimento, focou-se no espaço. O restaurante foi expandido para onde estava uma casa de pronto a vestir e foi criado uma galeria no rés-do-chão que tão bem caracteriza a casa, ainda hoje, e que lhe veio trazer uma certa envolvência. O investimento foi substancial, 'amarrando' Fernando Silva ao pagamento de um empréstimo que não descansou enquanto não saldou. Durante seis anos manteve um exigente horário (dez da manhã às três da madrugada) e não fez férias. Com tal esforço , o nome 'Tico-Tico' cresceu e tornou-se a casa de eleição para muitos aveirenses. Pelas suas portas passavam mecânicos, advogados, comerciantes, polícias, taxistas, enfim, passava todo o espectro populacional aveirense e Fernando Silva 'metia-se' com qualquer um deles com o mesmo à-vontade e boa disposição. Aliás, até de Albergaria e arredores vinham habitués e muitos dos «bons garfos» consideravam que uma visita a Aveiro sem ir ao Tico-Tico, não era uma visita de todo… Os seus afamados pregos no pão acabaram por colocar a cervejaria no roteiro de quem ia ao cinema no movimentado Cine-Teatro Avenida.
Curiosamente, o lema de Fernando Silva foi provavelmente uma das razões do sucesso do estabelecimento: 'estávamos ali até mais para convívio e não para a exploração'.

Contudo, não era apenas com os clientes que mantinha relações de amizade, também os seus empregados eram acarinhados quase como família. Numa época em que ainda era a 'velha senhora' quem mandava, Fernando Silva ia ao sindicato e à segurança social pagar as cotas dos colaboradores e criou, ao longo dos anos, um ambiente de informalidade. Aliás, todos os anos tinham um dia de 'forrobodó fora de portas', para descontrair. Um dos empregados remata o espírito da casa com esta observação: ‘gostei muito do Tico-Tico porque fiz descontos para a segurança social desde que desde comecei a trabalhar lá’.
A cidade, por seu lado, ia evoluindo. Surgiram novos negócios, Aveiro cresceu e a saúde de Conceição, eterno braço forte na cozinha, deteriorou-se. Tinha chegado a altura de pensar num trespasse. Porém, até neste processo Fernando Silva foi cauteloso. Queria passar o negócio a quem lhe garantisse que o Tico-Tico ia permanecer em pleno funcionamento e que não despedisse um funcionário sequer. O trespasse foi efetuado em Outubro de 1971, e numa daquelas coincidências, três dos empregados acabaram por fazer parte da gestão seguinte (Reis, Santos e Américo), que levou o Tico-Tico a bom porto durante mais de 30 anos. O capítulo de Fernando Silva acaba aqui e o seu contacto com o Tico-Tico também, mas não porque tenha ficado com algum tipo de mágoa. Muito pelo contrário, os anos felizes que passou no restaurante tornam o contacto saudosista e um pouco emocionado. Ficam, porém, com ele, memórias de uma vida preenchida e alegre.

Entretanto, o Tico-Tico tem continuado o seu percurso. Durante uma terceira gerência temporária, esteve um pouco parado, mas conta já com a experiência de Paulo Vieira, proprietário do Cafeína, localizado também em Aveiro, para perpetuar a sua presença na cidade. Efetivou um esforço de remodelação admirável, trazendo nova vida à parte de cima e à cozinha. Um dos principais objetivos era manter o carisma e saudosismo da casa e para tal conservou o tradicional balcão, alto e robusto.
Paulo orgulha-se do estabelecimento já ter atravessado várias gerações. Hoje em dia serve os filhos e até netos de quem frequentou a casa no início, o que só contribui para a continuidade do restaurante.
Aristides montou os alicerces, Fernando Silva ergueu as paredes, a segunda gerência, colocou o teto e Paulo pintou-a com nova vida. Uma bela casa, aveirense com certeza!  
Tico Tico

 

2018-10-11T15:14:45+00:00