Picota
— desde 1987 —

É no bairro mais emblemático de Aveiro, há muito apelidado por “Vila Nova”, que mergulhamos na história do Snack Bar Picota e em vivências de outrora. Tudo começou com a tasca do Vareiro, mais precisamente na antiga Rua do Vento, hoje Dr. António Christo – homenagem conseguida, não sem luta com o município, pelas gentes da terra ao ilustre aveirense que defendeu de forma tenaz os interesses dos marnotos, dos pescadores e do salgado.
Idos são os tempos em que, ao cair da tarde, os velhos marnotos, moços, pescadores e lavadeiras de todas as idades, animavam as tabernas desta rua para espairecer de um dia de lide e canseiras, em especial a taberna do “ Ti António Vareiro”. Na Beira-Mar aveirense, ninguém conhece ninguém pelo nome, mas sim pela alcunha. Ora, António Libânio da Silva, originário de Ovar, não conseguiu fugir a este fado.

“O Vareiro”, estabeleceu-se em Aveiro em meados dos anos 30, depois de se ter aventurado em explorar as Américas, desde que decidiu ir para o Brasil de assalto com os seus tenros 8 anos de idade. Com a mulher bastante mais nova do que ele e com um filho pequeno, alugou a casa do número 21 e 23, bem como o estabelecimento comercial que ficava no piso de baixo. Fruto das experiências que vivera além-mar, transformou-a na taberna e mercearia mais movimentada da Rua do Vento. A bizarra mistura de odores que se fazia sentir ao entrar na loja, deixava adivinhar a venda de um pouco de tudo, desde o vinho do pipo ao bacalhau, batatas, azeite, petróleo, sabão azul…

O casal era muito querido neste bairro, quer fosse pela força e visão do negócio de António quer pela natureza humanitária da sua jovem esposa que alimentava os pobres e fazia o jantar para os legionários.
Pois bem, mais de meio século passado, é de um outro casal não menos querido na Beira-Mar que vamos contar esta história - Armanda Gomes Martins e António Ramalho.
Armanda, natural de Mortágua, foi estudar para Viseu com 11 anos, ficando alojada em casa dos primos. Mas logo viu que a escola não era para ela. Tinha muitas saudades de casa, não conhecia ninguém para além dos primos e chorava em qualquer canto ou esquina. Só estudou um ano, pois queria começar a trabalhar e com 13 anos assim o fez, indo primeiro para a copa e depois para ajudante de cozinha do Cacimbo, restaurante dos primos que ainda existe, na rua Alexandre Herculano. Após 3 anos de lá estar, os primos chamaram-na e disseram-lhe: “a partir de amanhã tomas tu conta da cozinha, o cozinheiro vai de férias” - Armanda chorou toda a noite com medo do peso da responsabilidade - foi assim desafiada a assumir o controlo da cozinha para o substituir. Passaram-se 15 dias e a coisa correu tão bem que lhe disseram “vais ficar mais 15 e o cozinheiro completa o mês de férias”. Cumpriu tão bem a tarefa que o seu sonho tornou-se mais próximo: ter uma cozinha só dela, um negócio próprio.
O irmão arranjou-lhe trabalho em 1987, tinha ela 18 anos, no restaurante Mercantel, em Aveiro, porque os fundadores do Mercantel eram da aldeia de Armanda. Também no restaurante Mercantel coqueluche de Aveiro em termos de marisco, fez parte da equipa de cozinha que contava com 4 pessoas, quando a gerência mudou, Armanda passa a ser responsável pela cozinha também aqui.

No Mercantel conheceu o António Ramalho, por quem se apaixonou.
António, agora com 59 anos, primeiro foi caixeiro no ramo automóvel, vendia peças no Stand Justino. Depois, aproximadamente durante 3 anos, com 28 anos, foi embarcado 1º na nossa costa andava à ameijoa, depois ao bacalhau e espadarte. Seguiu-se o Mercantel (onde a especialidade era cozer marisco) onde esteve pouco tempo. A irmã do dono do Picota, Lurdes Cavaco era cliente do Mercantel e quando António saiu falou-lhe na vaga que o irmão tinha por preencher. Lá foi contratado para o Picota, tomando conta do balcão das mesas e do churrasco, onde até hoje é mestre. Passou do mar para a terra sem pestanejar. António natural da freguesia da Glória, ceboleiro de gema, é o braço direito e esquerdo de Armanda que é a dona do negócio, ajudando na tomada de decisões.
Em finais dos anos 80, a antiga Tasca do Vareiro foi adquirida por dois sócios oriundos de Sever do Vouga e de Oliveira de Frades, que fundaram o Snack Bar Picota e decidiram dar este nome à casa porque nas suas terras utilizavam a Picota para a extração da água, simbolizando a vida e o sucesso do negócio. A 3 de Julho de 1990, Armanda substitui a anterior gerência, apenas com 20 anos de idade.
Desde que Armanda Martins assumiu o leme do negócio várias foram as alterações ao espaço, toda a cozinha foi remodelada para inox e tirou-se o balcão abrindo o espaço para mais mesas no restaurante.

O negócio transborda o valor que se impõe para Armanda desde sempre, a família. Dizem que o Natal é quando o Homem quiser, pois bem, para a família da Armanda, todas as 2ªas feiras é Natal. Neste dia, em que o restaurante fecha portas para o merecido descanso semanal, Armanda e o marido deslocam-se à terra Natal dela, Mortágua, para reencontrar toda a família que vai estando dispersa em locais diferentes, mas que religiosamente se junta para conviver e trabalhar a terra. Para Armanda não há coisa mais revitalizante e relaxante do que pôr a mão na terra que a viu nascer. Levanta-se às 6H00 da manhã e vai trabalhar nos campos. Aqui renova o oxigénio para a azáfama semanal que encontra no snack bar. Da terra trás no saco a batata, o feijão e couve que utiliza para a confeção das refeições no restaurante e em casa.
O filho do casal, Paulinho, hoje com 22 anos e, que as gentes do bairro da beira mar tão bem conhecem desde pequenino a acompanhar os pais no snack bar, continua a ajudá-los ao fim de semana com a calma e simpatia amena que o caracteriza, nas pausas do curso de Engenharia Mecânica.
Este é um snack bar que serve o mais típico da comida portuguesa. A ementa vai variando, mas mantêm-se pratos fixos ao longo da semana, é o caso dos grelhados e dos rojões, à 3ªa feira feijoada à transmontana, 4ª feira bacalhau com natas e dobrada, à 5ª feira o cozido à portuguesa, à sexta empadão e bacalhau com grão, ao sábado bacalhau à Brás e lombo ou vitela assada, ao domingo o cabrito e os famosos filetes de polvo com o suculento arroz de berbigão.

A casa está aberta de terça a Domingo das 7H00 às 2H00 da manhã.
Diz o povo que os lugares precisam de um nome e de quem os nomeie, precisam de gente. Mas as gentes também precisam de um lugar, para ser e para estar...no Snack Bar Picota encontram esse lugar!  
Picota

 

2018-06-06T11:03:11+00:00