Licor de Aveiro
— desde 2015 —

Ana Martins deu mais uma volta à espessa mistura que dançava na panela. Chamou Rui Martins, o seu marido, para tomar conta do tacho porque tinha mesmo de ir engarrafar o resto do stock, uma vez que os clientes do quiosque situado na rua Viana do Castelo, estavam à espera do famoso Licor de Aveiro. Rui procurava uns ingredientes, distraído. Por vezes o que precisamos está mesmo ao nosso lado e nem nos apercebemos. Lembrava como tudo começou, quando era um petiz a correr escada acima escada abaixo, com o aroma da aguardente bagaceira no corredor do prédio a antecipar o famoso licor de alguidar. Lembrava as histórias que as senhoras contavam sobre este néctar enquanto o faziam, especialmente a da vizinha viúva que relatava a partida do marido para a guerra e de como ela lhe ofereceu um copo de licor para ele ganhar coragem. Estavam de mal um com o outro, mas não se vai para a guerra com um coração pesado, daí o gesto, um pouco contrariado, magoado, mas também carinhoso, cheio de esperança.

O fim da história emocionava sempre Rui: o senhor regressava da guerra e reconciliava-se com a esposa com um abraço e uma frase sussurrada: 'Por vezes o que precisamos está mesmo ao nosso lado e nem nos apercebemos'.
Rui continuava a mexer o licor, após uma pausa para dar uma dentada no bolo de amêndoa da esposa, o primeiro produto que se arriscaram a comercializar. De facto, a ideia de fazer acompanhar uma fatia de bolo com um dedal de licor tinha sido boa, porque os dois caiam mesmo bem juntos.
O licor de alguidar - a inspiração do Licor de Aveiro - era e é muito procurado nas festas de São Gonçalinho, mas o sonho do casal é mais ambicioso. Querem dar a conhecer o fruto dos seus esforços ao resto do mundo. A comercialização da marca teve excelente aceitação nos estabelecimentos Aveirenses, contudo, a reputação além-fronteiras também está assegurada.

O licor de Aveiro conta já com o primeiro e segundo lugar no XVIII Tasting Contest (concurso de provas) PRODEXPO em Moscovo. O casal considerou a possibilidade de industrializar a produção para assegurar mais stock, porém, após várias provas cegas em que a escolha recaía sobre a bebida produzida de forma artesanal, Rui fincou pé e insistiu no produção tradicional.
O nome deve-se à origem da receita, a cidade de Aveiro, e a bebida vem em três sabores, todos eles apetecíveis: tangerina, menta e morango, sendo este último a mais recente adição à família, fruto de muita experimentação.

Chega ao fim a nossa história, porque Ana regressa a casa e há muitas coisas a fazer. Exprime algumas preocupações em relação ao futuro enquanto vasculha facturas. Rui ainda a mexer a panela, olha tranquilamente para a esposa e responde com um sorriso: 'Não te preocupes demasiado com o que está longe. Por vezes o que precisamos está mesmo ao nosso lado e nem nos apercebemos'.  
Licor de Aveiro

 

2018-05-29T16:26:57+00:00