Renovadora dos Arcos
— desde 1982 —

Na Rua Domingos Carrancho encontramos a Renovadora dos Arcos, um estabelecimento antiquíssimo onde se efectuam arranjos de sapatos e que podia facilmente ser a cara do comércio de proximidade. São casas como esta que testemunham a evolução das lojas e oficinas tradicionais, pelo que não será de todo inusitado proclamar esta oficina de sapateiros aveirenses como sendo a verdadeira fonte de inspiração da plataforma Comércio Nosso.

Atrás do pequeno balcão aguarda-nos um dos mestres, Dário Martins, pronto a relatar as suas vivências, enquanto João Martins, eterno companheiro de profissão, dá uns remates no tacão de uma bota e partilha pontualmente curiosidades e factos esquecidos pelo tempo que só um verdadeiro aficionado e conhecedor de história retém.

A nossa epopeia começa em Sever do Vouga, com o jovem Dário a aprender a arte da reparação de calçado numa oficina, cujo grosso do negócio se centrava na manutenção de botas para os trabalhadores das Minas do Braçal. A vida era dura e Dário, na esperança de construir um futuro melhor, embarcou para o Brasil. A casa estava longe, mas as saudades, essas, estavam sempre por perto. Ainda assim, Dário continuou a aperfeiçoar a sua profissão até 1982, altura em que decidiu regressar à terra que o viu nascer. A sua estadia foi, contudo, temporária, uma vez que a mexida cidade de Aveiro, com o seu comércio e movimento, representava a melhor hipótese de praticar uma função que já conhecia muito bem. Conseguiu encontrar emprego na Renovadora dos Arcos, onde trava conhecimento com Mário, também ele emigrado no Brasil, numa daquelas curiosidades.

Os dois amigos recordam-se de quando a Praça do Peixe abarrotava de transeuntes na senda dos muitos negócios que pululavam nas ruelas. Em amigáveis corridas contra o relógio, Dário e João desunhavam-se para consertar os sapatos dos seus clientes enquanto faziam as suas compras, num corropio que hoje só se vê de noite, com os muitos bares da zona. Falam-nos de um antigo Salão de Jogos onde agora se encontra o restaurante Bólide, da Casa do Café ao invés da Tasquinha do Leitão e da Loja de Cortinas que ocupava o local da Gelataria Milano. Até a conhecida Megahits dava lugar, no olhar retrospectivo do par de trabalhadores, a uma loja de aparelhos electrónicos. O próprio espaço da Renovadora também tem que se lhe conte. Anteriormente, a já pequena loja dividia-se em dois locais de trabalho, nomeadamente o da cesteira dona Bemvinda e do sapateiro Sr. Graça que ainda trabalhava num chão de terra batida à luz de candeia.

Assim é a visão de quem tem o privilégio da experiência, capaz de fazer recuar a cortina da história. Porém, nem só os locais são relembrados. Dário e João descrevem também a sua clientela. Alguns, conhecidos de sempre, outros mais recentes, todos eles alvo de uma atenção de quem já trata, não só os clientes, como também a profissão, por 'tu'. São caras e nomes que perduram na memória dos dois profissionais, muitas destes já filhos e netos dos clientes mais antigos, que vêem nestes dois sapateiros da velha guarda, amigos da família, dedicados mestres de uma arte que é urgente preservar, e é bom que assim seja, para o bem dos nossos sapatos e da alma que tão bem calçam.  
Renovadora dos Arcos

 

2018-06-05T08:46:11+00:00