O Buraco
— desde 1987 —

Numa noite aveirense, quatro amigos atravessaram a multidão da praça do peixe, deixando para trás graves de músicas indistinguíveis e esplanadas apinhadas, ora de pessoas, ora de copos vazios. No nº31 da rua Antónia Rodrigues, esperava-os Alice Conceição, a proprietária do Buraco, que lhes indicou a mesa deles. Antes, contudo, uma pequena pausa para descansar e recordar. Os quatro amigos, separados após o fim do curso, organizaram um último encontro, antes de um deles deixar Portugal para trás, em busca de uma vida melhor. À medida que se dirigiam para a sua mesa ao fundo da sala (era sempre aquela que escolhiam), o murmurinho da rua ia-se esbatendo cada vez mais, abafado pela fusão de Jazz & Blues que envolvia suavemente todo o espaço.

Os tons quentes e madeiras pareciam querer afastar o frio da rua, enquanto que a iluminação ténue da sala e o espaço aconchegante traziam uma sensação de intimidade ao grupo, quase como uma reunião secreta. Sem perguntar nada, a D. Alice chegou com quatro cervejas importadas, todas elas diferentes, consoante o gosto dos quatro ex-estudantes. Um deles percorreu a parede com os olhos até encontrar, num cantinho perto do pé da mesa, uma inscrição com o nome de três deles. “É de 87, quando ainda não estudavas connosco.“ O rapaz ausente na inscrição olhou desconfiado para D. Alice: “É verdade, mas não é da minha altura“ a senhora ri. “Foi o sr. João que montou o negócio em 1987.“

Alice e o seu marido estiveram emigrados no Canadá e ao regressam a Portugal decidiram, revitalizar um espaço que tanto ressoava entre os habitués. D. Alice casou a já excelente escolha de cervejas, vinhos e petiscos com pratos de cozinha tradicional portuguesa como a grelhada mista, a carne de porco à alentejana, o bacalhau com natas, o arroz de pato, o entrecosto de vitela e o polvo, confeccionados pelas mãos experientes do seu marido. Esta foi, simplesmente, uma união divinal.
A clientela também se manteve, simplesmente trocou a t-shirt do curso pela camisa e gravata. Sim, quem conhece o Buraco não esquece facilmente. A casa sempre teve nos estudantes (e ex-estudantes) a sua clientela mais fiel. Jantares de natal de biologia, ambiente e mecânica são religiosamente cumpridos todos os anos. Sábados são as noites de um grupo do CETA e volta e meia um grupo de dança vem comer um pica-pau acompanhado por uma cervejinha.
Quanto a diferenças, também as há.

O turismo começa a fazer-se sentir nesta cidade à beira-mar e o Buraco não é excepção. Quiçá uma oportunidade para D. Alice ir recordando o seu francês. Os turistas, por sua vez, vão ficando cada vez mais enamorados com o estabelecimento, do qual um grupo de alemães é o perfeito exemplo. Todos os anos visitam Portugal e todos os anos vão almoçar ao Buraco. Sem excepção! Mas também não é de estranhar. Boa comida e bebida, a preços acessíveis, num local longe da confusão onde se revivem memórias sem pressa, parece ser uma óptima combinação. Até tem uma lareira, para aqueles dias frios de Inverno...

À data da redação desta história, o Buraco acaba de trocar de gerência. A D. ALice e o marido despedem-se da casa, enquanto ajudam a passagem de testemunho. Ao vermos a nova e a velha gerência lado a lado, a trocar ideias e episódios engraçados de restauração, podemos afirmar que o espírito do Buraco continua bem vivo. Um adeus ao casal que tão bem serviu Aveiro todos estes anos e um “bemvindo” sincero a quem o levará certamente a bom porto.
A história continua…  
O Buraco

 

2018-06-12T15:50:50+00:00