Cervejaria Rossio – “O Augusto”
— desde 1963 —

A história d’ O Augusto, uma das figuras mais conhecidas de Aveiro, conta-nos o percurso de um homem cheio de força e gosto pela vida, que soube, para além de tudo o mais, conquistar o coração dos aveirenses e da mais bela varina da beira-mar.

Num dia igual a tantos outros, voltava o jovem Augusto a casa dos padrinho na aldeia de Valongo do Vouga quando foi confrontado com uma muito esperada notícia — uma promessa de trabalho em Aveiro, numa cervejaria que dava pelo nome de Tico-Tico.

Ainda meio atordoado com a boa nova, o moço de 17 anos não demorou a perceber o desafio que tinha pela frente. Fez as malas e pôs-se a caminho, daquela, que sem saber, viria a ser a sua casa, na terra que viria a chamar de sua.

A vida na cidade revelou-se mais apressada e confusa, especialmente a cozinha do cervejaria, onde aguardavam pilhas de louças, alguidares e batatas por descascar. Os anos assim passaram, numa penosa roda viva que levou o menino e fez o moço.

Um belo dia, quis a patroa que o Augusto fosse às gafanhas, ao talho do Sr. Júlio, buscar a carne para as já famosas bifanas e fêveras do Tico-Tico. Foi num pé e veio noutro, carregado com duas sacas de carne preparadas para a frigideira. E assim foi no dia seguinte, e no outro, semanas, meses e anos a fio, trocando os sapatos pela bicicleta e mais tarde pela motoreta.

Falta dizer que o jovem Augusto de tolo não tinha nada. Para além de ter um sentido de observação aguçado, dominava com maestria a arte do “saber-ouvir”, pelo que não demorou muito a perceber que poderia, com algum treino, cortar ele mesmo a carne. O que nos leva a mais duas características do nosso protagonista, fundamentais para o desenrolar desta história, o sentido de oportunidade e a força daqueles que alcançam os sonhos mais improváveis.
Augusto tinha andado a aprender com o Sr. Júlio a arte de cortar carne e o resultado era bem visível nos pratos que confeccionava. Posta esta descoberta, os clientes habituais do restaurante ainda gostavam de se meter com ele, mas acabada a brincadeira, certificavam-se que era o Augusto quem lhes punha a bifana no prato. Eventualmente o 'gaiato', o 'rapazola', o 'moço', tornou-se gerente do Tico-tico.

Apesar das suas competências se desenvolverem a olhos vistos, o reconhecimento e a posição desejada com sócio continuava um sonho inalcançável. Contudo as suas ambições não miravam exclusivamente a sociedade do Tico-tico. Era também o coração quem falava mais alto, arrebatado pela beleza da jovem costureira Luisa Vinagre, a “Rainha de Aveiro”, título atribuído em dois anos consecutivos, àquela que viria a ser o grande amor de Augusto.

Era no regresso das idas diárias ao talho do Sr. Júlio que o moço ia namorar à janela. Da casa térrea do Rossio, sob o olhar atento da Avó Micas, ia aos poucos conquistando o coração da bela Luísa, num namoro que durou um ano, até ao dia em que esta aceitou o pedido de casamento, celebrado semanas depois na igreja da Vera Cruz, corria o ano de 1959.

Depois do casamento, o Sr. Augusto ficou mais determinado que nunca em edificar o seu próprio negócio. Em 1962 sai do Tico-tico e um ano depois abre a Casa de chá, onde trabalhou durante cinco anos, até 1966, ano em que concretiza, juntamente com a sua esposa, o sonho de erguer o seu próprio restaurante numa antiga cavalariça, a cervejaria O Rossio. A casa grande fama e prestígio e em Maio 2007 ganhou a medalha de mérito municipal, entregue pela câmara de Aveiro.

Pessoas de todo o país reuniram-se no seu estabelecimento, vendo em Augusto não só um excelente Chef, como também um amigo incomparável. As portas do Rossio estavam sempre abertas e Augusto sabia que tanto se aperta a mão ao engenheiro como ao mais humilde funcionário.

Este não foi contudo um percurso fácil. Nos primeiros anos, tanto ele como o resto da família tinham de dormir no chão da cervejaria para abrir cedo e deitar mãos à obra. A sua filha, Lena, cresceu portanto atrás do balcão, absorvendo o entusiasmo e empenho dos pais na vibrante atmosfera daquela que se tornou a sua segunda casa…


Nestas histórias de sucesso é comum ver o passar de testemunho para a geração seguinte, que aprende a arte com os pais, e o mesmo se passou com Lena. Cresceu para inspirar nos clientes o mesmo tipo de admiração que seu pai gozava, se bem que, já nem todos os clientes habituais a cumprimentam em português. Entenda-se: o turismo faz-se sentir cada vez mais em Portugal e a cervejaria Rossio, ano-após-ano, atrai regularmente clientes de todas as partes do mundo. Fica aqui também uma menção especial a Fátima, a Sra. que recebeu de Augusto toda a sabedoria sobre o negócio da restauração e se encarrega, dia-após-dia, de manter o brio e o bom nome da casa.

Apesar dos ventos de mudança, a casa permanece com uma atitude informal e uma decoração reminiscente do passado, prestando tributo à arte do azulejo. Seja pela atitude brincalhona do pai, o sorriso terno da filha, ou a ementa inigualável, esta é uma casa que ficará para sempre imortalizada na memória dos aveirenses.  
Cervejaria Rossio

 

2018-06-05T12:03:34+00:00