Alzuleich
— desde 2016 —

ALZULEICH · AVEIRONOSSO

Na Rua Conselheiro Luís Magalhães, há quem batalhe diariamente para que o hambúrguer seja reconhecido como património gastronómico de pleno direito. E no Alzuleich, nem só para a boca se confeccionam refeições: a comida pesa tanto como a arte. Pelo menos o que a vista enxerga deixa-nos com esse sabor, entre a decoração self-made e o empratamento artístico do hambúrguer que se quer da melhor qualidade.

Para além de todos os elementos da ementa terem história, herança e título escolhido a dedo, o interior parece desenhado para ser comido com os olhos e tem uma explicação: há falta de orçamentos que agradassem, Fernando Simões e Maria João Gonçalves deitaram mãos à obra e desenharam o Alzuleich- More than food a gosto.

Apesar de natural de Aveiro, o casal trabalhava em Lisboa e de la trouxe a inspiração. A família crescia e os filhos fizeram despoletar neles um desejo que não anteviam, personificado na posse de um negócio próprio. Ele trabalhava nos Transportes, ela exercia em Segurança Alimentar, ambos eram exímios cozinheiros caseiros. Há mesmo que questionar, poderá existir negócio mais familiar?

O nome do espaço faz-nos correr a imaginação, bem antes de estarmos sentados à mesa. Alzuleich é a palavra árabe para azulejo e as delícias que saem da cozinha nada mais são do que técnicas e/ou tipos do mesmo. Digam-no o trinchado, o policromático, o balaústre ou o esponjado, alguns traços que encorpam este irreverente caso de sucesso. Um sucesso apoiado numa conjuntura que reconhece a excelência de quem ousa arriscar.

Não é novidade que o conceito de hamburgueria vem tomado Portugal de assalto desde há um par de anos atrás. Tido como ícone da cozinha americana, o hambúrguer foi introduzido na cultura estadunidense por imigrantes alemães, algures entre os séculos XVIII e XIX. Por norma, ensanduichado entre duas porções de pão, encontramos um conjunto de ingredientes como carne – tradicionalmente bovino, embora frango ou peixe já não sejam elementos estranhos no prato – alface, tomate, ketchup e um pouco até onde a criatividade conduzir e o estômago permitir.

A massificação do conceito trouxe uma conotação tendencialmente negativa.
Porém, com toda a regra surge, naturalmente, a excepção que a forma e uma necessária desmistificação: os hambúrgueres não são todos iguais e o Alzuleich está cá para mostrar, ilustrar e dar a provar exactamente isso. O espaço foi-se querendo mais que agradável, dotado de 2 pisos, é quase como um prolongamento da sala lá de casa. Se o conceito se foi ajustando à conjuntura da restauração reinante na cidade, também o cardápio sofreu ligeiras alterações de forma a melhor cair no palato dos aveirenses. O molho pesto perdeu os coentros, a limonada com canela foi cedendo até a perder canela e as batatas, ao invés de caseiras, passaram a pré-fritas: tudo devido às sugestões dos clientes, escutadas pelos donos e mais tarde postas em prática.

Fernando e Maria João sabem ser tidos como os forasteiros da região, por terem abandonado a cidade de onde eram naturais para depois regressar ou simplesmente por ousarem arriscar num mercado, e numa região, pouco dada a experimentalismos. É precisamente esse desafio que assume o papel de principal força-motriz, nem par pouco habituado a virar a cara aos desafios: incorporar o bairrismo e desafiar o status-quo da restauração, no mercado mais difícil do país.

A fidelização de algumas mãos-cheias de clientes, agregada ao feedback das redes sociais, vai dando pistas sobre o sucesso do empreendimento. É um indicador de que o Alzuleich está mesmo cá para ficar.

Fica o aviso e um spoiler adicional: aqui, a limonada sabe mesmo a limão.

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2017-11-22T09:26:13+00:00