Maria da Ap. da Cruz, Herdeiros
— desde 1882 —

Uma história antiga, de outros tempos e de outras gentes.
Estamos numa casa de ovos-moles, ou “doce fino” como era chamada a iguaria confecionada pelas freiras do Convento de Santa Joana. Nela ainda conseguimos sentir o eco das cantigas e rezas antigas gravadas na argamassa das paredes das salas. Nela ainda transparecem as gargalhadas e camaradagem deste trabalho conduzido exclusivamente por mulheres. Mulheres de Aveiro, orgulhosas e independentes.

Na parede da sala de entrada que nos orienta para a cozinha, permanecem os marcos do passado gravados em tons de cinza, retratos gastos pelo sol e manchados pelo orvalho. Reconhecemos os cabelos grisalhos, o xaile sobre os ombros e o olhar postado no horizonte. Ao lado uma estante com apetrechos peculiares e um baú repleto de cascas brancas em forma de barrica e outras formas exóticas inspiradas no mar.

Esta história começa em 1882. Um ano peculiar que começa e termina num domingo. Quem governava era Fontes Pereira de Melo e o Rei era D. Luís. Ainda faltavam oito anos para a bancarrota e o ultimato inglês. Portugal queria-se moderno, mas o desenvolvimento tardava.

Em Aveiro, no rescaldo do grande incêndio do convento Franciscano da Madre de Deus, nascia a “Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Aveiro”. Em maio desse mesmo ano, no primeiro centenário da morte do Marquês de Pombal, era colocada a primeira pedra do monumento a José Estêvão Coelho de Magalhães, que podemos hoje ver na praça da República.

Por entre as ruas e ruelas do bairro da beira-mar vivia a jovem Odília Soares. Um dia, talvez por um acaso, talvez por obra do destino, Odília conheceu uma senhora, de quem se perdeu o nome, que por ter sido empregada no entretanto extinto Convento de Jesus era conhecedora da fórmula da confecção dos já famosos ovos-moles. Ambas tornaram-se grandes amigas e houve um dia em que a senhora passou para a Odília os segredos dos “doces finos” confecionados no convento. Odília era uma mulher empreendedora e criou logo ali o seu negócio que viria a manter até aos 80 anos, produzindo ovos-moles que eram depois vendidos na estação de caminhos-de-ferro, na ligação Porto-Lisboa ou nas várias confeitarias da cidade.

Passaram-se anos, passaram-se décadas, veio um novo século, nasceu uma república. O testemunho foi passado para a nova geração com Maria da Apresentação a suceder à sua tia na árdua tarefa de manter a casa aberta, tendo-o conseguido por décadas a fio. Porém, em 1981, fechou a confeitaria onde os seus preciosos e autênticos ovos-moles eram vendidos. Dª. Maria da Apresentação fez então prometer à sua nora, Dª. Silvina da Silva Raimundo de que esta haveria de continuar com o fabrico, seguindo a receita original.

Cumpriu-se a promessa. Maria da Apresentação, Herdeiros ( M1882 ) é hoje uma das casas mais célebres e emblemáticas da tradição gastronómica portuguesa e o seu valor reconhecido além-fronteiras.  
M1882

 

2018-04-04T10:14:33+00:00